Mosteiro das Sete Formas, 27 de Calistril de 4593 AR (parte IV)


– Ayalal!

Lysa vagueou por entre as pessoas, rodando a cabeça enquanto o tentava avistar. Apercebera-se que ele se levantara e fora atrás de alguma coisa, mas esperara que ele regressasse no instante seguinte. Porém haviam já passado alguns minutos e não havia sinal do rapaz. Voltou a chamá-lo pelo nome, sem obter qualquer resposta. Onde é que ele se teria metido? Teria regressado sozinho para o orfanato? Ayalal conhecia as ruas, não se perderia por ali, porém era estranho não a ter avisado.

Caminhou por mais alguns minutos, abordando uma ou outra pessoa, perguntando-lhes se haviam visto um rapazinho pálido a passar por ali. Ninguém o vira. Parou no meio da rua, oscilando entre a frustração e a preocupação. Se ele tivesse mesmo regressado para o orfanato sem a avisar, iria ouvir um valente raspanete.

– Ah, peço perdão…? – Uma voz suave chamou-lhe a atenção e Lysa olhou por cima do ombro.

Uma mulher, não muito mais velha do que ela e com a mesma estatura baixa, encontrava-se parada atrás de si com um dedo estendido, como se se preparasse para lhe tocar nas costas. Com o outro braço amparava contra o peito um gato de aspecto adoentado o qual lançou a Lysa um olhar lânguido e desinteressado.

– Sim?

– Ouvi dizer que andava à procura de um rapaz. – A jovem observou-a com uns expressivos olhos azuis, em busca de uma confirmação. Tinha o cabelo preso numa longa trança de um ruivo quente, e o rosto salpicado de sardas. Lysa tinha a certeza de que nunca vira a rapariga na cidade subterrânea.

– Ando. Ele afastou-se do grupo e não sabemos onde possa estar – confessou. – Ele é assim deste tamanho, com o cabelo preto e a pele muito clara.

Situou a mão ao nível do peito, como referência para a altura de Ayalal.

A rapariga pousou o queixo sobre a mão livre, a expressão enrugando-se um pouco enquanto pensava. Um instante depois os olhos arregalaram-se.

– Sim! Vi-o a correr naquela direcção.

Apontou para a entrada de uma rua estreita. Lysa não sabia exactamente onde poderia desembocar. Franziu as sobrancelhas mas agradeceu com um sorriso leve, antes de se afastar com passadas largas.

Atrás dela, a rapariga viu-a partir, enquanto afagava o gato entre as orelhas. Quando deu meia volta e se perdeu entre os transeuntes, levava consigo um sorriso largo que lhe espalhava no rosto um sincero regozijo.

*

Tinham-no amarrado, pouco importados com as lágrimas de dor ou com os gemidos que cada movimento do braço esquerdo causava. Tentou gritar uma vez, porém um murro do homem mais magro silenciou-o.

– Bem, é agora que nos livramos de ti, pequena aberração – disse o homem de espada embainhada. Acocorara-se ao seu lado, olhando-o com curiosidade. Levou-lhe uma mão ao rosto e, sem cuidado, afastou-lhe os lábios, observando-lhe os incisivos afiados. – E podemos levar estes como recordação. Poderão valer qualquer coisa.

Ay tentou afastar a cabeça da mão calejada que lhe tocava. Olhou na direcção da saída do beco. Eles não tinham como levá-lo sem darem nas vistas, não podiam simplesmente enfiá-lo dentro de um saco e levá-lo ao ombro ou arrastá-lo. Ao mesmo tempo que pensava isto, apercebeu-se de que uma sombra se aproximava. Por fim, alguém que o pudesse salvar! Gritou por ajuda, e uma voz feminina respondeu, chamando-o pelo nome. Um aperto gelado esmagou-lhe o peito ao reconhecê-la, e quando viu Lysa surgir diante de si, o coração parou.

– Ay! – Havia choque espelhado na cara de Lysa, enquanto assimilava toda a situação. O olhar saltou da criança para os três homens. – O que… deixem-no!

O homem acocorado soltou um estalido com a língua. Ay desviou a atenção para ele e o que viu fê-lo temer mais do que temera por si. O homem tratara-o como se fosse um divertimento ligeiramente interessante e rotineiro, sendo a sua possível morte algo tão banal como beber uma cerveja numa taberna. Porém a chegada de Lysa aguçara-lhe o sorriso para um esgar tortuoso. Os orbes brilhavam de antecipação por algo que Ay não compreendia – ou tinha medo de compreender.

– Ora, ora, ora… – Ergueu-se e rodou sobre os calcanhares para encarar Lysa. Cruzou os braços sobre o peito, inclinando um pouco a cabeça para um dos lados. – O que temos nós aqui? Uma donzela perdida?

Os outros dois homens entreolharam-se e trocaram um sorrisinho sarcástico. O mais magro avançou pela periferia de um dos lados do beco, aproximando-se.

Os punhos de Lysa fecharam-se com força e ela inspirou fundo.

– O que julgam que estão a fazer a essa criança? – O seu tom era simultaneamente vacilante e resoluto. – Libertem-na.

– Isso é uma ordem? Ouviram, rapazes? Esta frágil donzela está a dar-nos ordens. – Uma risada acompanhou-lhe o comentário e ele abanou a cabeça com descrença. – De facto, há mulheres com sentido de humor… agarrem-na.

Lysa recuou um passo e abriu a boca. Escutou-se o início de um grito.

– Façamos isto a bem! – A voz do homem interrompeu-a. – Se gritares ou fugires, matamos a cria de vampiro. Se colaborares, talvez o poupemos. Parece-me um bom negócio, não achas?

A jovem voltou baixar o olhar para Ay. O instante em que se encararam foi o suficiente para o rapaz perceber que a haviam deixado sem opções. O peito de Lysa ergueu-se numa inspiração funda de aceitação. Os punhos cerraram-se com força por um instante e depois relaxaram. Antes que ela pudesse responder à chantagem, o homem que se havia aproximado subtilmente avançou para ela num movimento rápido e agarrou-a pelas costas, prendendo-lhe as mãos com uma das suas, e pousando-lhe a outra sobre a boca.

– NÃO! Deixem-na! – O grito de Ayalal ecoou no beco. Tentou libertar-se, mas havia mais do que uma corda a impedi-lo. A dor do braço era excruciante, torturando-o a cada pequeno movimento. – Larguem-na!

O chefe do trio olhou-o por cima do ombro.

– Cala-te. – Voltou-se, dobrou as costas e agarrou-o pelo cabelo, levantando-lhe a cabeça do chão muito ligeiramente.

Ay cerrou os dentes e silvou por entre eles, de lágrimas a escorrerem-lhe rosto abaixo. Voltou a relancear Lysa, agora com mais dificuldade. O homem maior aproximara-se também e as suas mãos pareciam procurar algo no velho vestido. Medo, pânico, dor, coragem… havia tudo isso na expressão dela, assim como desafio a si mesma.

– Larg… – A palavra ficou a meio, quando, com toda a força, o chefe empurrou a cabeça do rapaz contra a pedra do solo. O berro de dor de Ayalal foi interrompido por uma tontura, seguida de uma escuridão súbita que lhe arrombou as portas da mente para o prender em si. A consciência esvaiu-se.


Mosteiro das Sete Formas, 27 de Calistril de 4593 AR (parte III)


Um arrepio de puro pavor percorreu-lhe as costas. Ayalal recuou um passo pequeno, tentando pensar nas hipóteses de fuga que poderia ter. Atrás de si não havia saída e a probabilidade de conseguir passar pelos três homens era menos do que ínfima. A imagem do gato a saltar da pilha de caixotes para o telhado de uma das casas pairou por um momento na sua memória.

– Não tens para onde ir, rapaz – notou o homem da espada, avançando num passo descontraído.

Ay engoliu em seco com dificuldade, a mesma que sentia ao respirar. Continuou a recuar, até se aperceber da presença do primeiro caixote, através da visão periférica. Correu para ele e trepou-o com movimentos frenéticos. Escutou uma agitação atrás de si, porém não ousou olhar, não já. Subiu para o caixote seguinte, ficando à altura de um homem de estatura média. Num gesto rápido, atreveu-se a espreitar por cima do ombro, quando se preparava para trepar um terceiro caixote, enclavinhando as mãos entre as ripas de madeira. O homem da espada tinha um braço estendido à sua frente, parecendo ter impedido o mais magro de arremessar uma adaga, e observava o seu avanço com uma expressão curiosa e interessada.

A estrutura periclitante estremeceu quando o rapaz deu o impulso para subir para o caixote seguinte. Ficou parado, de gatas sobre a madeira, enquanto esperava que a sua precária escada de fuga estabilizasse. Inspirou fundo, antes de erguer o olhar para o quarto caixote. Levantou-se com cuidado, lançando um novo olhar para trás.

– Vá, continua a tentar fugir – incentivou o homem, fazendo um aceno para cima com a cabeça. – Estamos aqui para ver quão longe consegues ir.

Com hesitação e desconfiança, o rapaz voltou a olhar na direcção do topo da casa. Não faltava muito. Se subisse para o próximo caixote, o telhado estar-lhe-ia ao alcance das mãos. Esticou-se, tentando agarrar com firmeza na tampa de madeira. No entanto, uma dor aguda e fria penetrou-lhe num dos dedos indicadores. Um grito engasgado encheu-lhe a garganta e o rapaz libertou a mão, a dor tornando-se quente, quando o sangue se libertou e escorreu. Ayalal levou-o à boca, abafando a dor, enquanto as lágrimas lhe vinham aos olhos. No mesmo instante, o intenso sabor a sangue encheu-lhe a boca, reavivando a memória daquilo que era, do nome que o homem lhe chamara. De alguma forma o toque morno, conjugado com a dor e com essa memória, conseguiu mantê-lo firme. Inspirou fundo e tirou o dedo da boca, flectindo a mão como quem testa a sua mobilidade.

Mentalizou-se de que conseguiria sair dali e fez uma nova tentativa, evitando a zona onde estaria o prego que o ferira. Cerrou os dentes e conteve a respiração por um segundo, içando-se e combatendo o instinto de largar as mãos quando toda a estrutura oscilou perigosamente. Ao sentir os pés apoiarem-se na superfície horizontal, suspirou e endireitou-se. Tinha o nariz ao nível da zona onde começava o telhado plano. Quando esticou os braços e os apoiou no parapeito de pedra para se puxar para cima, ouviu lá de baixo: “agora”.

Uma pancada seca ecoou no beco e, de súbito, Ay sentiu o caixote onde se apoiava fugir-lhe de debaixo dos pés, acompanhado por um estardalhaço de madeira a embater no chão. Os olhos quase lhe saltaram das órbitas quando o pânico o tomou sem aviso. Tentou agarrar-se à borda do edifício, esgatanhar com os pés na parede para se impulsionar para cima, mas os sapatos deslizavam e não havia nenhuma reentrância onde se apoiarem. Os braços começaram a escorregar. Mordeu o lábio inferior, tentando forçar os membros a aguentar-lhe o peso.

– Quanto mais alto se sobe…

A voz vinda do beco soou-lhe como um prenúncio de morte. Escorregou até ficar pendurado somente pelas mãos. Tentou cravar as unhas na pedra, criar qualquer atrito que o sustivesse, mas os dedos deslizaram, até sentirem somente o ar. Conteve a respiração, fechou os olhos e caiu. Quase de imediato, o ar saltou-lhe dos pulmões com um grito lancinante, quando atingiu um dos caixotes caídos. O seu corpo resvalou para o centro do beco, ao mesmo tempo que uma tremenda dor emanava do braço sobre o qual caíra. Não ouviu os passos a aproximarem-se, mas ouviu a voz debruçar-se sobre ele, enquanto uma sombra o espreitava.

– … maior é a queda.

*

Mosteiro das Sete Formas, 27 de Calistril de 4593 AR (parte II)


Quando, após o almoço, a cozinha do orfanato estava arrumada, os pequenos correram a irem buscar o único casaco remendado que tinham. Ay hesitou à porta da cozinha, após todos saírem, olhando para Lysa, enquanto apalpava com cuidado o conteúdo de um dos bolsos. O toque áspero do pergaminho percorreu-lhe os dedos. Também lhe queria dar um presente, porém talvez fosse melhor esperar até depois do jantar, depois do ambiente sossegar.

Imitou as restantes crianças e, depois de enrolar o cachecol no pescoço, certificando-se que ficava tão agasalhado quanto possível, esperou junto dos outros, à porta do orfanato. A Directora Drane chegou um pouco depois, parecendo contá-los com o olhar, e Lysa e outra das responsáveis vieram logo a seguir, sorrindo face ao entusiasmo que viam na maioria dos rostos.

Não tardaram a seguir em grupo pelas ruas, levantando olhares curiosos, enquanto avançavam em direcção à praça principal da cidade subterrânea. Uma corrente de ar gélida soprava através dos túneis, trazendo consigo a lembrança da neve que de momento deveria cobrir mais do que os picos das montanhas.

Muito subtilmente, Ayalal esticou a mão até segurar a de Lysa, deixando-se guiar em silêncio. As outras crianças falavam entre si; as que raramente saíam do seu lar apontavam bancas, casas, e até algumas pessoas de aspecto mais peculiar, como um grupo de quatro halflings que passava por eles com mochilas às costas, bordões em punho, e pequenas espadas à cintura.

Nem um quarto de hora depois, chegavam à praça. Fora montada uma pequena tenda num dos lados do círculo de chão empedrado com um toldo e uma bancada sobre a qual se fechava uma cortina feita de losangos coloridos. Vários caixotes de madeira dispunham-se em seu redor, de forma que os espectadores se pudessem sentar para assistir ao espetáculo, deixando atrás destes uma zona em que poderiam haver espectadores de pé, e ainda uma terceira área, à frente dos caixotes, onde se poderiam sentar no chão. Foi para essa última zona que as crianças foram levadas. Ay ficou numa das pontas, olhando expectante para a cortina. Por trás dela escutavam-se vozes baixas, das quais era impossível perceber o que diziam.

Foram chegando mais espectadores que se acomodaram atrás deles. Alguns perguntavam pouco discretamente donde viera toda aquela criançada. Ay lançava-lhes um olhar por cima do ombro, quando o som rápido do dedilhar das cordas de um instrumento musical se fez ouvir, captando a atenção de todos. A cortina abriu-se devagar, revelando uma marioneta de nariz comprido que nas mãos simples segurava um pequeno alaúde. A voz do boneco era fina e nasalada, enquanto em rimas divertidas se apresentava ao público como sendo um célebre menestrel que corria o mundo em busca de histórias sobre valentes cavaleiros e cavaleiras, donzelos e donzelas, terríveis deuses do mal, dragões, gigantes de pedra e magias que iam além do que se poderia imaginar. Quando falou das últimas, pequenas faíscas coloridas saltaram em seu redor, roubando inspirações estupefactas e exclamações excitadas à plateia.

As crianças observaram, maravilhadas, enquanto outras personagens, articuladas por cordões, foram surgindo, e a história sobre o terrível e maléfico dragão branco que vivia no pico mais alto do reino – que por sinal não era longe dali – se desenrolava, a música do alaúde tornando-se mais intensa. A marioneta em forma de dragão cuspiu meia dúzia de luzes esbranquiçadas, que deixaram o grupo de guerreiros e o próprio menestrel com pingentes de gelo por todo o corpo, o que roubou uma animada gargalhada a todos, inclusive ao próprio lagarto gigante, num tom roufenho.

Por fim os valentes guerreiros conseguiram derrotar o vil dragão, usando um estratagema que o levou a congelar-se a si mesmo, para depois ser partido ao meio pelo guerreiro maior e mais forte. Todos aplaudiram e os três bonecreiros que tinham controlado os fantoches saíram de trás do palco e fizeram amplas vénias perante eles. Moedas foram depositadas dentro de um chapéu que passou por entre os espectadores e regressou a um dos artistas que agradeceu a generosidade.

Apesar disso, Ayalal já não lhes tomava atenção. Esta fora desviada para um miar baixo, não muito longe de si. Um gato de pelagem suja passava a não mais de um metro deles, coxeando da pata da frente, de cabeça e cauda baixas. Os ossos projectavam-se por entre a magreza doentia. O rapaz hesitou, enquanto o sentia encolher-se a cada passo que se forçava a dar.

Ergueu-se, sem tirar os olhos do animal e aproximou-se devagar, não se dando ao trabalho de tentar silenciar os passos, para o gato dar pela sua presença. O animal olhou-o com dois orbes de um azul intenso, desconfiado.

– Não te quero fazer mal – murmurou Ay, apesar de estar consciente de que o animal não o entenderia.

No momento em que estendeu as mãos para o tomar nos braços, o animal soltou um silvo, o dorso arqueando-se e assustando o rapaz que recolheu os braços contra o peito. O gato partiu numa súbita corrida frenética, por entre os pés das pessoas que andavam por ali. Ayalal ficou chocado por um segundo, antes de partir a correr atrás do animal.

– Espera! – pediu em voz alta, tentando não perdê-lo de vista.

O gato entrou por uma ruela, para a qual Ay virou também. A luz ali era fraca e não havia uma vivalma à vista. Conseguiu ver a cauda do animal, quando este virou para uma segunda rua. Ofegou, correndo até lá, e acabando por descobrir um beco sem saída. O animal havia saltado por cima de uma pilha de caixotes, até ao topo de uma das casas de pedra que ladeavam as ruas. O rapaz parou junto do primeiro caixote. Lá de cima, o gato lançou-lhe um olhar penetrante, antes de desaparecer.

Ay soltou um suspiro e deixou que os ombros descaíssem. Desistia da perseguição. Não podia obrigar-se a tentar ajudar o animal, mas tinha pena. Tendo em conta o seu aspecto, o gato acabaria certamente por morrer.

Deu meia volta, desalentado. Porém, estacou, e o sobrolho franziu-se. À entrada do beco estavam três homens parados a olhar para si. Um deles era alto, de ombros largos e peito amplo, e o cabelo rapado revelava a marca esbranquiçada de uma cicatriz. Outro era magro e mais baixo – pareceria inofensivo, não fossem as duas adagas que empunhava. O terceiro, de espada à cintura e mãos apoiadas na cintura, era um meio-termo entre os primeiros. E sorria-lhe.

– Encontrámos a cria de vampiro – anunciou.

*

Mosteiro das Sete Formas, 27 de Calistril de 4593 AR (parte I)


Nessa manhã todos acordaram cedo e ninguém molengou pela cozinha enquanto tomavam o pequeno-almoço. Durante a tarde haveria uma espetáculo de fantoches na praça principal da pequena cidade subterrânea e, após vários pedidos e choramingos, a Directora Drane permitira que pudessem ir se, e só se, as tarefas diárias estivessem concluídas.

Apesar de as crianças mais velhas poderem sair sozinhas para fazer pequenas tarefas, a maioria era obrigada a ficar dentro das paredes de pedra do orfanato, até uma das raparigas mais velhas se decidir a levá-los consigo até ao mercado ou a um dos pequenos templos. Por isso aquilo seria uma dupla oportunidade. Ayalal e duas outras meninas da mesma idade que ele eram a excepção: tinham autorização para sair do seu lar e ajudar em pequenos recados. No caso do rapaz, essa autorização incluía as aulas com Yudarh. Ay não estava certo de como Lysa conseguira convencer a directora a dispensá-lo durante tanto tempo, no entanto as crianças que não auferiam dessa benesse tinham acabado por juntar um novo factor à inimizade para com ele. No entanto, ali estava uma hipótese para todos poderem sair e divertirem-se.

O rapaz acabou de lavar as tigelas das papas de aveia do pequeno-almoço e saltou de cima do banco baixo que o ajudara a chegar melhor à tina de água fria apoiada na bancada. Abriu uma das portadas da janela e regressou para pegar na tina com ambas as mãos, indo despejá-la. A seguir voltou a enchê-la de água limpa para lavar alguma roupa encardida.

Enquanto estava distraído a esfregar uma camisola, Lysa espreitou-o da entrada da cozinha por um momento, antes de se encostar à parede a observá-lo com um sorriso leve. Por fim, acabou por se aproximar.

– Tão concentrado que estás na tua tarefa – notou.

A criança sobressaltou-se, tirando as mãos da água e erguendo o olhar cor de violeta. Sossegou ao ver quem era e sorriu-lhe.

– Estava a pensar nas aulas do mestre Yudarh – confessou, afastando dos olhos um bocado da franja que começava a ficar demasiado comprida. – A treinar mentalmente.

– Treinar as letras mentalmente parece complicado – comentou Lysa, arqueando as sobrancelhas. Parou ao lado de Ayalal, fitando por um momento as peças de roupa que ele havia já lavado e que estavam prontas para pendurar junto à lareira. – Eu ajudo-te com isto, para te despachares mais depressa.

O rapazito torceu o nariz face à oferta da amiga. Não que a ajuda não fosse bem-vinda, no entanto…

– Se os outros te virem vão dizer que estou a fazer batota – fez ver.

– Mas… hoje é o teu sétimo aniversário – lembrou, como quem não queria nada. – Como pequeno presente, mereces ter menos trabalho. Quer os outros gostem, quer não.

Deu-lhe um beijinho rápido no cabelo negro, antes de pegar na roupa e a levar para junto da lareira. Ainda hesitante, mas mais contente, Ay acabou aquela tarefa e levou a última peça de roupa até Lysa que, depois de a pendurar, apoiou as mãos de cada lado da cintura, com um sorriso amplo.

– Tarefa cumprida – notou, baixando o olhar para ele. – Agora podemos descansar um pouco, e depois ajudas-me com o almoço. O que achas?

A ideia de descansar agradou particularmente ao rapaz que tinha os braços doridos de esfregar tanto a loiça como a roupa. Lysa puxou dois bancos para junto da lareira, donde a tentação do calor os chamava, e sentaram-se, de pés esticados na direcção das chamas vivas. O frio do Inverno soprava através de qualquer fresta que conseguia encontrar.

– Como será o espetáculo? – perguntou Ay, curioso, enquanto imaginava a forma dos fantoches e os seus coloridos. – Será que têm uma história para contar?

– Ora, certamente que sim. Se não tivessem não seria interessante – respondeu a amiga, remexendo no bolso largo do avental que usava sobre a saia. – Mas acho que vai estar bastante frio lá fora quando formos, por isso…

Tirou do bolso uma longa tira de tecido cor de violeta, cujas extremidades acabavam em finas tranças, e estendeu-lha. Ayalal piscou os olhos e abriu a boca numa exclamação muda, antes de estender as mãos pequenas para o cachecol. Sentiu nos dedos o toque áspero mas simultaneamente fofo da lã e levou-o até ao rosto, fechando os olhos para apreciar melhor aquele presente.

– Obrigado, Lysa – murmurou, roçando a face no tecido. – Adoro-o.

– Então experimenta-o – sugeriu, observando-o com carinho. – Achei que iria condizer com os teus olhos.

Ayalal fez como ela dissera, e enrolou o cachecol em redor do pescoço, aconchegando-o bem e sorrindo de orelha a orelha, tão claramente feliz que uma pontada de comoção alagou o olhar de Lysa com lágrimas mornas. Se fosse possível, gostaria que ele tivesse sempre aquela expressão no rosto. Faria por isso, tanto quanto pudesse.

A jovem levou as mãos ao cachecol e ajeitou-o melhor, agarrando depois numa trancinha de lã, a qual aproximou de súbito do rosto do rapaz para lhe fazer cócegas. Ay encolheu o pescoço, a boca desaparecendo dentro do tecido, ao mesmo tempo que uma gargalhada lhe fugia. Lysa riu-se com ele e acabou por lhe oferecer um beijo terno sobre a fronte.

– Feliz aniversário, meu pequenino – murmurou contra a pele ebúrnea do rapaz.




*

Mosteiro das Sete Formas, 10 de Kuthona de 4592 (parte III)


O rosto do rapaz contorceu-se numa careta.

– Não foi simpático…

– Não é nada a que os meus anos de vida não me tenham habituado – notou, olhando Ay por um segundo. – Não me ofendeu e respondi-lhe com a verdade, que estava a cuidar dela, que não queria nada em troca, que estava num lugar seguro onde ninguém lhe poderia fazer mal, e que não a deixaria sair, para já, porque poderia correr perigo. Era óbvio que a Lysa não conseguia acreditar totalmente, mas também não sabia bem o que pensar a meu respeito, o que criava um impasse na sua mente. Apesar de ainda me temer, tentou aproximar-se, porém qualquer movimento brusco da minha parte fazia-a ressaltar-se e encolher-se. Por vezes deixava-a sozinha, para que tivesse o seu espaço, os seus momentos a sós. Das primeiras vezes fiquei simplesmente invisível, na mesma sala, com medo do que ela pudesse fazer ao perceber que não havia mais ninguém junto dela. No primeiro dia a Lysa limitou-se a ficar na cama, abraçada a si mesma, enquanto os soluços lhe apertavam a garganta; no segundo, houve uma primeira fase de choro, depois pareceu falar consigo mesma e recompôs-se o suficiente para explorar o que havia aqui; no terceiro, pegou num dos livros e ficou a ver as ilustrações, sentada na cama. Nunca pediu para sair de casa comigo ou perguntou o que havia lá fora, e só muito aos poucos começou a fazer perguntas sobre mim, até que acabou por se habituar à segurança que um desconhecido como eu lhe poderia oferecer. Demorou quase duas semanas, até conseguir que me dissesse o que lhe acontecera e quem lhe fizera mal. Das primeiras vezes a Lysa começava simplesmente a chorar ou escondia-se sob o cobertor e não dizia mais nada durante mais de uma hora. Por fim disse-me, meio aos soluços, de mãos enclavinhadas uma na outra e a tremer, da forma como aquele a quem chamava pai a usava, e não só ele; como a mãe virava o olhar e se afastava, sem sequer tentar impedir o que lhe faziam; como a magoavam… eu vira as nódoas negras quando a examinara, assim como as marcas de dedos e dentes nos braços magros e no pescoço.

Ay passou uma mão pelo rosto, já esquecido do chá. As lágrimas picavam-lhe os olhos.

– Como… como é que podem fazer… isso? Porquê, mestre?

Yudarh ficou em silêncio por um instante.

– São almas perversas, Ayalal. Fazer o mal dá prazer a demasiadas criaturas deste mundo – murmurou, a contragosto. – E eu tinha em mãos uma criança que passara por tudo isso. A Lysa contou-me que fugiu do acampamento em que vivia, no sopé da montanha, na mesma noite em que sofreu a queimadura do rosto. Tentara escapar-se a um dos abusos do pai e, na fuga, acabou por tropeçar e cair meio dentro de umas das fogueiras. Apesar disso, o pai espancou-a e deixou-a inconsciente do lado de fora das tendas. Quando voltou a si, a noite ia alta, e o homem encarregue da vigia adormecera. Não obstante o medo do que lhe poderia acontecer se a encontrassem, fugiu montanha acima.

– E o mestre encontrou-a e salvou-a. Se não…

Yudarh fez um leve aceno de concordância.

– Depois disso fiz por encontrar o acampamento e puni quem tinha de punir. Antes de sair disse-lhe o que ia fazer, quando regressei disse-lhe o que fiz. Não era um remédio para a sua alma, mas, a longo prazo, esperava que lhe apaziguasse os medos. A Lysa viveu comigo durante mais quatro meses, até a levar para o orfanato e entregar ao cuidado da Directora Drane. Ela sentiu-se um pouco traída por eu o ter feito e ficou chateada… mas isto não é lugar para uma criança crescer e já passara demasiado tempo comigo. Precisava de ter contacto com outras pessoas e enfrentar o medo, e eu tinha a certeza que ela o conseguiria.

O tiefling acabou de falar com um sorriso leve nos lábios, de algum modo reflectindo um misto de prazer paternal e tristeza pelo conjunto de acontecimentos que haviam traçado o caminho de Lysa até ele.

*

Não muito depois, Ay voltou ao orfanato com toda a história a ebulir-lhe na mente de criança. Não conseguia perceber por que razão havia pessoas tão más no mundo, o que ganhavam em causar sofrimento aos outros, e porque é que nenhum deus os impedia. O que é que os Todos Poderosos tinham de tão importante para fazer? Rezingou para si e, distraído com os pensamentos, tropeçou no segundo degrau.

Mal entrou, procurou pela amiga na cozinha e, não a encontrando, subiu ao andar de cima. Ao vê-la ao fundo do corredor, correu para ela e abraçou-a pela cintura.

Lysa piscou os olhos, sem perceber ao que se devia aquela súbita demonstração de afecto.

– Estás bem, Ay? – perguntou, pousando-lhe uma mão no topo da cabeça.

O rapaz ergueu o rosto e sorriu, o olhar brilhando de carinho.

– Estou. Gosto muito de ti, Lysa. Mesmo muito.

Sensibilizada pela confissão inesperada, a jovem retribuiu o sorriso e ajoelhou-se no chão para melhor o abraçar contra o peito, deixando-se ficar assim por longos e sentidos segundos. Ayalal afagou-lhe o cabelo castanho com cuidado. Duvidava que a amiga tivesse alguém que a acarinhasse de alguma forma, até conhecer Yudarh. E, depois disso, fora viver com um grupo de estranhos. Ele não conseguia sequer imaginar quão assustada Lysa não estaria, quão sozinha e desprotegida. Apertou-a melhor.

Mosteiro das Sete Formas, 10 de Kuthona de 4592 AR (parte II)


O mestre acabara por se levantar, trazendo duas chávenas para a mesa e a chaleira que pusera ao lume e que agora emanava um agradável perfume a cidreira. Serviu-os e, pouco depois, Ay pôs de lado o pergaminho e agarrou na sua chávena com ambas as mãos. Apesar da lareira acesa, o calor não era suficiente para lhe aquecer os dedos.

– Obrigado – murmurou, chegando-a até ao rosto para inspirar o vapor. Deu um golo pequeno, deixando que o líquido criasse um trilho quente até ao seu estômago, donde o calor se difundiu para as restantes partes do corpo.

Yudarh voltou a recostar-se na cadeira, com um sorriso leve nos lábios.

– Não me agradeças. Se morreres de frio no meu tugúrio, a Lysa mata-me – brincou um pouco, voltando a pegar do livro de poesia.

O pequeno riu-se e abanou a cabeça.

– Ela não seria capaz – notou, observando a superfície trémula da infusão, enquanto a imagem de uma Lysa determinada e furiosa lhe passava pela mente. Parecia tão diferente daquele estranho episódio, dias atrás, deitada na sua enxerga, febril. – Mestre… quando a Lysa esteve doente, sabe do que é que ela queria fugir?

O meio-demónio acabara de estender a mão livre para a chávena, porém deteve-a a meio caminho. A fronte enrugou-se ao franzir as sobrancelhas. Os orbes de íris vermelha avaliaram-no.

– O que queres dizer com isso, Ayalal?

O rapaz inspirou fundo, continuando a observar a chávena como se tivesse um sincero interesse na cerâmica simples com que fora feita.

– Durante as alucinações a Lysa chorou e gritou, aterrorizada. Implorou. Estavam a fazer-lhe mal… muito mal – acrescentou, o sorriso completamente desaparecido da sua expressão. – Falou no pai e na mãe, tentou fugir… literalmente.

– Perguntaste-lhe alguma coisa a esse respeito, depois de ela melhorar? 

Ay abanou a cabeça numa negativa, e pressionou os lábios por um momento, antes de responder.

– Não fui capaz – confessou. – E achei que lhe pudesse fazer mal pensar nisso. Acho que não se lembra de que teve alucinações.

Yudarh acenou, puxando a chávena para perto de si com uma garra. Àquela proximidade, deixou que um dedo circundasse o rebordo.

– Foi uma decisão sábia, rapaz – murmurou. – Esse é o tipo de fantasma que deve permanecer enterrado, para o bem dela. Se não consegue ultrapassá-lo, a Lysa precisa de o esquecer tanto quanto possível.

Ay franziu as sobrancelhas, preocupado.

– E ele não virá até aqui? O pai dela?

– Em corpo não vem. Se vier em espírito, farei questão de voltar a matá-lo. – Uma fria resolução tomou-lhe conta do olhar. Não havia ali qualquer piedade, nenhuma dúvida no passo a seguir. O rapaz teve então percepção do quão implacável Yudarh poderia ser.

– Então o mestre salvou-a? – murmurou.

– Não… Em parte. Não matei o pai dela para a salvar, matei-o porque não merecia viver. A Lysa era um pouco mais velha do que tu, tinha uns 8 anos, quando a encontrei a vaguear na montanha. Era um farrapo quase varrido pelo vento, parte do rosto em carne viva, as roupas manchadas de sangue e pó, queimadas num dos braços… tentou fugir de mim quando me viu, completamente aterrorizada.

Ay ergueu o olhar para os chifres do meio-demónio e pensou nos restantes pormenores mais demoníacos, percebendo muito bem como a amiga se poderia ter assustado ao encontrá-lo.

– Como é que a convenceu de que não queria fazer-lhe mal?

– Não convenci – O sorriso dele foi simultaneamente triste e irónico. – Lancei-lhe um feitiço para que adormecesse, antes que caísse da vertente abaixo, e trouxe-a para minha casa. Tentei mantê-la adormecida tanto quanto possível, enquanto lhe tratava dos ferimentos e da exaustão. A cicatriz do rosto não teve remédio. Sarou, mas acho já tinha demasiados dias para que não deixasse marcas.

O tiefling deu um golo no chá, mais pensativo do que propriamente perturbado com o assunto, enquanto relembrava os pormenores.

– Obviamente, e como descobri pouco depois, os danos físicos eram o menor dos seus males. Não a poderia manter eternamente a dormir, por isso, ao fim de dois dias, deixei que os efeitos do soporífero passassem por si mesmos. Quando tomou suficiente consciência de si, o terror regressou. Olhou em volta, como se algo pudesse saltar sobre ela a qualquer momento – fez um gesto para o compartimento em seu redor –, até que se apercebeu da minha funesta presença. Nesse momento, os olhos dela arredondaram-se muito e recuou contra a parede, parecendo querer fundir-se com a pedra. Encolheu-se, dando-lhe um aspecto ainda mais pequeno. Nessa altura, não tentou fugir, mas a forma como o olhar saltava entre mim e a saída nas minhas costas era óbvia. Deixei-a habituar-se à minha presença, antes de tentar falar com ela. Quando falei, não me respondeu. Podia não perceber a minha língua, mas isso não conseguia adivinhar. Em todo o caso, não me aproximei, dei-lhe o seu espaço, e ela ficou à espera. Quando lhe virei as costas para ir à estante, ouvi-a levantar-se, tentar ser discreta e encaminhar-se para a saída. Deixei-a ir. Ela experimentou todas as portas, cada uma delas trancada. Ainda assim, com o desespero, tentou forçá-las.

– Mas não conseguiu – Ay murmurou o óbvio, enquanto observava o mestre com atenção.

– Não. Ao fim de um bocado ouvi-a parar com as tentativas, e no entanto não regressou para junto de mim. Pedi-lhe para voltar, mas ela manteve-se à porta. Não insisti nem fui ter com ela, mas disse-lhe “as portas estão fechadas com magia, só eu as consigo abrir”. Não tenho a certeza se acreditou, mas houve mais tentativas de arrombar a porta principal. Deixei-a. Algum tempo depois aproximei-me só o suficiente para lhe deixar uma tigela de caldo no chão e um cobertor, e a Lysa só não trepou pelas paredes porque não conseguia. Durante três dias foi este o nosso relacionamento, e só me consegui aproximar dela usando invisibilidade, para ter certeza de que não se tinha magoado com as tentativas de fuga. A Lysa acabou por interiorizar que não conseguiria sair sozinha e que, se eu lhe quisesse fazer mal, já o teria feito. Com muita cautela, acabou por se aproximar. – Sorriu um pouco e abanou a cabeça. – A primeira coisa que disse foi: o que queres de mim, monstro?

*

Mosteiro das Sete Formas, 10 de Kuthona de 4592 AR (parte I)


Desde que Yudarh se oferecera para o ensinar que, dia sim, dia não, Ayalal passava duas horas diárias com o tiefling. Lysa, tendo uma série de tarefas no orfanato, era incapaz de estar presente na maior parte das aulas, por isso o rapaz subia sozinho até à casa do mestre. Yudarh não era propriamente um professor paciente, no entanto Ay era um aluno sossegado e isso, em parte, complementava cada uma das personalidades. Em adição, o rapaz aprendia depressa e era subtilmente curioso – expunha as suas dúvidas e curiosidades, sem insistir demasiado, e conseguia perceber pela expressão do mestre quando estava a pisar terreno perigoso.

– O pendente em forma de espada… – Ayalal estava sentado à mesa e segurava um pedaço de carvão com o qual desenhava duas letras do alfabeto repetidamente. Não olhava para o Yudarh enquanto falava. – O que é?

Sentado ao lado dele, o meio-demónio amparava um livro fino sobre o colo. Era o que normalmente o ocupava enquanto o pequeno praticava os seus exercícios de escrita. Escrito de forma diferente do normal, o mestre dissera-lhe que era de poesia.

– É um símbolo sagrado. Alguma da magia que pratico é de inspiração divina, por isso preciso do símbolo da divindade a quem presto a minha veneração – explicou Yudarh, lançando-lhe uma mirada. – Não imaginei que ainda te lembrasses dele.

Ayalal sorriu um pouco. Lembrava-se perfeitamente do feitiço que o meio-demónio usara meses atrás, e da forma como o pendente parecera brilhar dentro da mão cerrada de Yudarh.

– Então… é uma espécie de clérigo? Curou aquela gente toda no orfanato – notou.

Não obteve uma resposta imediata. O rapaz hesitou numa das letras, pensando para si se seria altura de mudar de assunto.

– Mais ou menos. Sou um bocadinho mais sombrio do que isso – respondeu, a voz baixando de tom. – Sou, ou era, um inquisidor, alguém que persegue os inimigos da sua fé.

Houve um novo silêncio, em que Yudarh pareceu pensar em algo mais e Ayalal retomou a escrita. O mestre conseguia perceber o cuidado que o aluno tinha para não cometer qualquer erro.

– Então… matava pessoas que não acreditavam na sua fé? – acabou o pequeno por perguntar.

– Não. Só os que eram inimigos dela, e nem sempre os matava – respondeu Yudarh, voltando a baixar a atenção para o livro. – A entidade divina que venero chama-se Iomedae, é uma semi-deusa e Arauto do deus Aroden.

Ay voltou a parar de escrever, desta vez erguendo o olhar, curioso por saber mais.

– Como é ela?

A questão arrancou uma pequena risada ao tiefling.

– Não é como se eu a conhecesse pessoalmente, mas Iomedae era uma feroz combatente contra as forças do mal, uma defensora da justiça, do valor, da honra e do bem – disse, passando uma mão pela lombada do livro. – É uma divindade inspiradora.

O pequeno fez um aceno, apoiando o rosto numa mão, enquanto pensava no assunto.

– Isso faz com que o mestre mate seres maus – notou. – Para proteger pessoas. É o que faz aqui na cidade, não é? É por isso que nenhum monstro chegou até aqui, porque o mestre luta contra eles. É um herói mas ninguém sabe. É injusto.

Yudarh fechou o livro, esticou o braço e bateu com ele ao de leve na cabeça do seu aluno.

– Seria injusto se eles soubessem o que se passa, mas não sabem, nem devem saber, para manterem a preocupação distante dos seus corações. Que se preocupem somente com ladrões e assaltantes e deixem os monstros para os pesadelos nocturnos. Por vezes a ignorância pode ser uma bênção. Para além disso – acrescentou, tirando o livro de cima da cabeça de Ayalal –, eu não quero esse reconhecimento, não sou herói nenhum. Faço o que consigo e posso com os poderes que tenho, nada mais.

– E com a ajuda do seu bastão. – Ay lançou um relance à arma mágica com as suas estranhas inscrições a negro, encostada à estante. Pelo canto do olho, conseguiu aperceber-se de que o mestre soltara um suspiro silencioso. Perscrutou-o com mais atenção. Seria tristeza que o seu olhar vermelho reflectia?

O rapaz pressentiu que havia ali uma história por contar, mas não se sentiu no direito de insistir. Regressou ao seu pergaminho, em parte arrependido por ter falado do bastão, em parte curioso por o que se esconderia naquele suspiro. Tentaria perguntar a Lysa, talvez a amiga soubesse.

*