Mosteiro das Sete Formas, 21 de Neth de 4592 AR


Hendran insistira que Ay se deitasse e tentasse descansar. Ele limitara-se a lançar-lhe um olhar mortiço e abanar a cabeça numa negação. Sob as pálpebras, dois poços escuros falavam melhor do que qualquer palavra a respeito do cansaço da criança. Na verdade, o contraste com a pele pálida fazia-lo parecer mais doente do que alguns dos que padeciam da maleita.

Lysa passara a noite num sono inconstante repleto de murmúrios e esgares de angústia. Com o mimetizar exterior do nascer do dia, a luminosidade do quarto começara a crescer, assim como a sua inquietação. Ay cabeceava para a frente, lutando consigo próprio para não adormecer, quando a voz da amiga o despertou qual estalo no rosto.

– Larguem-me! – Lysa gritara e abrira os olhos, cuja atenção caiu sobre o rapaz ao seu lado. O medo inundou-lhe o rosto num reconhecimento que não era o suposto: via alguém que não era Ayalal. – Deixa-me, por favor! Isso magoa… por favor, por favor!

Soltou um soluço e tentou rastejar para longe dele. Por um segundo, Ay paralisou, chocado com tal reacção, e os músculos fraquejaram quando os tentou mover, doridos por tudo o que haviam passado nos últimos dias. No entanto, logo a seguir agarrou-a para a manter na enxerga.

Em resposta à prisão, as pálpebras de Lysa escancararam-se em puro terror. Ergueu uma mão trémula e pressionou-lha contra o rosto, tentando afastá-lo de si. Faltava-lhe porém a força.

– Lysa, sou eu – murmurou Ay, fechando um olho sobre o qual caíra um dedo magro. – Ninguém te vai fazer mal…

– Não, por favor! – implorava, as lágrimas começando a escorrer-lhe pelo rosto que se contorcia num choro sufocado. – Eu não fiz nada... larga-me, pai, larga-me! Não, não… Mãe, ajuda-me!

O rapaz fez o que pôde para a manter deitada, refreando-lhe as tentativas de o afastar, mas era difícil. O pânico dera-lhe uma falsa força e, apesar de Lysa não ser alta, ainda assim era maior do que ele, o que tornava mais difícil tentar contê-la. Acabou por, de alguma forma a largar e obrigá-la a sentar, só para a poder abraçar, fazendo por prender-lhe os braços contra o peito. Ela gritou de desespero, tentando escapar-se.

– Não vou deixar que te magoem – disse-lhe baixo, junto do ouvido, esperando que houvesse discernimento suficiente para o compreender. Pensou cada uma das palavras. – Estás segura aqui, nós protegemos-te. Somos teus amigos, a tua família. Ele não te fará mal, nunca mais.

Demorou até a jovem sossegar contra ele, levada por um choro que, devagar, se amenizou. Baixinho, Ay cantou-lhe uma música de embalar, a mesma que Lysa lhe cantava algumas vezes para o ajudar a dormir, esperando que isso fosse uma ajuda a sossegá-la. Quando achou que podia aliviar o aperto, o pequeno libertou um braço e afagou-lhe o cabelo num toque carinhoso mas algo trémulo, receando despoletar um novo ataque de alucinações. Por fim, também o choro terminou, deixando-a num sono exausto, aconchegada nos seus braços mais pequenos. Com ajuda de Hendran, voltaram a deitá-la na enxerga.

De mente esgotada por tudo o que se passara, Ayalal saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Lá fora, caminhou lentamente pelo corredor sombrio, os punhos cerrados com tanta força que as extremidades das unhas o magoavam. De súbito, parou e esmurrou a parede ao seu lado. A dor do impacto entranhou-se-lhe pelos ossos, porém foi um alívio breve ao que sentia. Inspirou fundo e engoliu em seco. Não percebia como é que não havia ninguém que os pudesse ajudar. O clérigo falhara de todas as vezes; no dia anterior ouvira Drane a contar a Hendran que os curandeiros, sabendo disso, se haviam recusado a ver as crianças, e que tinham sugerido que fossem levadas para fora da cidade, para não contaminarem os restantes cidadãos. Estavam a condená-los, não se atreviam sequer a tentar! Rosnou por entre os dentes, sentindo raiva dessas diabólicas pessoas, raiva do pobre rato que deveria ter causado aquela epidemia, raiva dos deuses a quem teciam preces, mas que na verdade eram incapazes de ajudar um bando de crianças…

Voltou a esmurrar a parede e a dor fez com que os pensamentos parassem por instantes, para a seguir ficarem a pairar na consciência. Havia neles algo de importante, sentiu, alguma coisa que lhe estava a escapar. Concentrou-se, resistindo à raiva que queria tomar posse dele. Quando se apercebeu do que era, os olhos arredondaram-se. Sentiu-se estúpido por não se ter lembrado antes.

Um instante depois, galgou pelos degraus abaixo e precipitou-se para a porta, saindo a correr para o frio da cidade, sem sequer se calçar. Atrás de si, a porta ficou aberta.

***

Mosteiro das Sete Formas, 20 de Neth de 4592 AR (continuação II)


A noite acabara de cair na cidade subterrânea, quando Hendran se apercebera que a expressão de Pather se descontraíra… e que o rapaz deixara de respirar. Tentaram reanimá-lo, porém fora um esforço infrutífero. Apesar de não ter qualquer vontade de se aproximar do corpo, Ayalal viu-se obrigado a ajudar a deslocá-lo até ao andar térreo, pousando-o junto ao altar da Avó Corvo e cobrindo-o com um lençol. O olhar divino velar-lhe-ia a alma pela noite adentro. Ay ficou quieto e em silêncio, enquanto a directora e Hendran rezavam uma prece murmurada a Andoletta. Não era capaz de olhar para o incaracterístico volume deitado no chão frio sem que uma onda de terror o submergisse. Era como se nada conseguisse deter a doença, como se cada um dos enfermos tivesse a sentença ditada.

Horas depois, quase como confirmação desse pensamento, um segundo corpo juntou-se a Pather. Após uma convulsão que lhe arqueara as costas de forma quase sobrenatural, a vida abandonara o corpo da rapariga que tivera o ataque de espasmos durante a manhã. Ver uma mulher quase adulta a perecer arruinava qualquer esperança que pudessem ter. Tentaram retirar o corpo sem acordar os que já dormiam ou estavam tão doentes que a consciência pairava entre uma realidade nublada e o delírio da febre.

Ainda não tinham atingido a madrugada do dia seguinte e já o quadro geral os devastava: os doentes que estavam mal haviam piorado para o estado que antecipara a tragédia. A febre subira e não parecia haver forma de querer baixar, as dores faziam-nos gemer numa sinfonia de horror, e os murmúrios desconexos abalavam quem os escutava.

Foi impossível para Ayalal conseguir dormir. Um nó de aflição esmagava-lhe o peito, tornando quase difícil respirar. Por isso, sob a luz trémula de uma vela, manteve-se sentado junto da amiga, refrescando-lhe o rosto com um trapo molhado, enquanto as horas rastejavam pela noite.

***

Mosteiro das Sete Formas, 20 de Neth de 4592 AR (continuação)


Quando entrou na cozinha, Ayalal deparou-se com um dos rapazes a empunhar firmemente o atiçador da lareira, e uma rapariga a segurar na vassoura, um passo atrás dele, enquanto observavam de olhos semicerrados um armário alto que se erguia encostado a um canto.

– Foi lá para baixo, eu vi! – disse outro dos órfãos, ajoelhando-se e quase encostando o rosto ao chão para espreitar. – Está lá, sim. Tenta tirá-lo com a vassoura.

– E se a coisa salta para cima de mim?! – perguntou a rapariga, chocada. – Eu dou-lhe com a vassoura se ele tentar sair…

Ayalal ponderou seriamente em deixá-los entretidos com fosse qual fosse o bicho que haviam encontrado. No entanto a sua consciência não o deixaria em paz se não soubesse o que poderia ser, principalmente havendo um quarto cheio de doentes por cima da cabeça de todos eles.

– O que se passa? – perguntou, após o segundo que usara para ganhar coragem.

Seis cabeças rodaram e olharam-no por cima dos ombros.

– É um rato gigante – disse a rapariga, muito depressa. – Estava escondido na despensa e, quando fui lá, fugiu.

Ayalal não acreditava que o animal fosse assim tão grande. Mas, segundo ouvira dizer, os ratos podiam causar muitas doenças, e se esse estivera escondido no sítio onde guardavam a maior parte dos alimentos, havia a possibilidade de ser ele o culpado para o que se passava nos últimos dias.

– Dá cá isso. – Um dos outros rapazes arrancou a vassoura da mão da pequena e baixou-se junto ao armário, enfiando a extremidade inferior por baixo do móvel e empurrando com força.

Escutou-se um guincho fino e, num movimento rápido, o animal surgiu, correndo desenfreadamente para tentar escapar. O atiçador da lareira caiu na direcção dele, porém falhou o alvo, batendo antes na pedra fria e ressoando na cozinha.

O rato tinha o comprimento de uma mão adulta aberta e uma magreza doentia – um olhar mais atento detectaria com facilidade várias peladas que revelavam a pele ulcerosa que o cobria. Por um instante, ele olhou na direcção da porta, onde estava Ay, e depois na da janela fechada, medindo as hipóteses de fuga. Enveredou pela primeira opção.

O rapaz ficou parado, vendo-o correr para si. Uma parte da mente dizia-lhe que o correcto era matá-lo, outra sentia pena dele. Não passava de um animal inocente que, como todos eles, só deveria querer um local seguro para viver.

Porém, antes sequer de o animal o conseguir alcançar, uma vassourada caiu sobre ele, atordoando-o. Seguiu-se-lhe o atiçador, que lhe arrancou outro guincho, uma e outra vez. Por instantes, Ayalal desviou o olhar fechou os olhos, contendo um esgar. Nada merecia uma morte assim.

Quando o animal jazia sem vida, sobre a pedra fria, aproximaram-se todos, espreitando-o.

– E agora? – quis saber um dos órfãos que, até ao momento, fizera por se manter afastado.

– Tem ar de estar cheio de doenças – notou Ay, baixinho. – Pode ter sido ele que fez toda a gente ficar doente. É melhor… queimá-lo?

Para sua surpresa, ninguém discutiu a sugestão. O rapaz que segurava no atiçador (agora com um certo orgulho pelo feito), ao fim de três tentativas, ergueu o rato e equilibrou-o na ponta, até chegar à lareira, para dentro da qual o atirou. Ficaram a vê-lo arder, como um estranho e macabro espetáculo de fogo.

***

Mosteiro das Sete Formas, 20 de Neth de 4592 AR


O clérigo Itori regressou e voltou a partir, com um sincero e trémulo pedido de perdão. O seu feitiço divino, que deveria curar Pather, falhara. Depois disso, ainda desencantara um pergaminho do interior da mala a tiracolo que trouxera, e lera o feitiço nele embutido. As palavras emitiram um brilho amarelado, e consumiram-se pela magia, desaparecendo. No entanto, o resultado não fora diferente da primeira tentativa.

Após a saída do servo da deusa Sarenrae, a Directora ficara parada à porta do quarto, observando os acamados, a testa formando uma série de rugas firmes. Poucas eram as crianças cujo estado estava razoável: conseguiam alimentar-se, apesar de enfraquecidas, e erguiam-se sozinhas, se se esforçassem. Porém as restantes decaíam depressa. Cerrou um punho com força.

– Ayalal – chamou.

De onde estava, junto de Pather, o rapaz fingiu que não estivera a olhá-la discretamente. Hendran retirara-se há não muito tempo para recuperar das horas que passara em claro a cuidar do órfão.

– Sim, senhora Drane? – perguntou, deixando a tina de água em paz por um momento. Os dedos estavam dormentes da frieza em que mergulhavam. Apertou-os sobre as coxas, aguardando.

A directora levou uma mão ao queixo, hesitante e pensativa, depois abanou a cabeça numa negativa. Os ombros descaídos e as costas levemente vergadas denunciavam como a epidemia roubava forças à mulher de meia-idade, sem necessitar de a contaminar.

Afastou-se do quarto, sem nada mais dizer. Pouco depois, lá em baixo, Ay escutou uma das portas principais bater.

O tempo passou devagar. Ele foi cuidando de todos como podia, no entanto, ao dar mais atenção a Pather, acabava por inevitavelmente descurar outros. Só teve completa noção disso quando, a algumas enxergas de distância, ouviu um ofegar forte, seguido de movimentos rápidos. Assustado, ergueu-se de um salto, enquanto o olhar pulava de pessoa em pessoa, até se aperceber quem era. Correu para lá e, sem ter a certeza do que fazer, tentou agarrar o corpo da jovem que estremecia violentamente com convulsões. Falhou à primeira tentativa, mas à segunda prendeu-lhe os braços, mantendo-a de costas junto ao chão. Não conseguia fazer nada quanto às pernas que chutavam o ar e se contorciam, nem ao pescoço que por alguns momentos quase parecia deslocado.

– Hendran! – gritou Ay, aflito. – Hendran!

Não obteve resposta. Apesar da porta aberta, a outra rapariga estava a alguma distância, a recuperar da exaustão. Era pouco provável que o escutasse.

Por entre os espasmos, o corpo foi incapaz de controlar o interior, e foi possível primeiro ouvir e depois sentir o odor forte e repulsivo de dejectos e sangue. Ayalal conteve a respiração por uns segundos, obrigando-se a ficar ali, mentalizando-se de qual era a sua tarefa. Ao fim de não muito tempo, os espasmos começaram a diminuir. O rapaz não a largou. Deixou passar largos minutos, olhando o rosto avermelhado e suado da jovem, até os músculos pararem por completo. A medo, soltou-a, e, ao mesmo tempo, observou-a com muita atenção. Lembrava-se bem do que acontecera à bebé após a convulsão – acabara morta. Apesar do movimento ser fraco, o peito dela ainda se movia com a respiração.

Passando ambas as mãos pelo rosto lívido, Ay pensou no que fazer. A directora não estava, Hendran precisava de descansar, e pedir ajuda às outras crianças estava fora de questão. Não só correriam um risco maior de ficarem contaminadas, como duvidava que colaborassem sequer consigo. Mordeu o lábio inferior, controlando uma súbita vontade de chorar, e impedindo um soluço de se soltar.

O toque leve de uma mão nas suas costas fê-lo estremecer. Baixou as mãos e olhou para o lado, arregalando os olhos, meio assustado. Lysa fizera o esforço de se levantar e ir ter com ele, apesar de não conseguir sequer disfarçar os tremores do corpo.

– Eu ajudo-te – murmurou, muito baixo. As pálpebras fecharam-se por um instante. – Ainda consigo.

– Vai deitar-te! – Ficou quase em pânico por vê-la ali. – Não podes fazer esforços, ficas pior. Eu trato de tudo. Eu consigo.

Mais importante que ele próprio interiorizar isso, era fazer Lysa acreditar. A mão nas costas de Ayalal fez mais força, já não estando propriamente a dar-lhe apoio, mas mais a apoiar-se para não tombar.

– Ay, não quero que faças tudo sozi… – começou a dizer, no entanto interrompeu-se para engolir em seco, levando uma mão à zona do estômago. Inspirou devagar, provavelmente tentando controlar as náuseas.

– Cuidas sempre de mim. Desta vez sou eu – disse Ay, dando um tom decidido às palavras.

Ela ia argumentar, mas levou a mão livre à boca. Apesar de contrariada, o rapaz conseguiu levá-la para a cama, devagar. A seguir foi buscar água e toalhas limpas e, embora o embaraço por tal tarefa não fosse pequeno, tratou da outra rapariga o melhor possível, despindo-a e limpando-a. O pior, ainda assim, era o fedor a sangue que o desafiava. No entanto, resistiu.

Lysa observara-o da sua enxerga. Quando Ayalal terminou, lançou-lhe um sorriso breve de encorajamento, ao qual ele tentou retribuir, mas não conseguiu. A criança preparava-se para se sentar a um canto e descansar por meia dúzia de minutos, quando ouviu um guincho, abafado pela distância, vindo do andar inferior.

***

Mosteiro das Sete Formas, 19 de Neth de 4592 AR (continuação II)


O clérigo prometera voltar logo pela manhã do dia seguinte, para tentar um novo feitiço. Ay e Hendran, a única jovem que, por milagre, ainda não havia adoecido, continuaram a cuidar dos doentes, enquanto a directora tirara algumas horas para tratar da vida que se perdera. O sossego que tiveram foi pouco.

Após ter entrado no quarto, o rapaz forçou-se a permanecer e suportar o odor a sangue que lhe remexia com os sentidos. O choque inicial passara, no entanto a perturbadora sensação de que tinha diante de si um banquete onde não poderia tocar horrorizava-o. Repetiu mentalmente que nada era mais importante que ajudar no que pudesse, por quem estava doente… pela pessoa que mais o amara durante aqueles anos.

Depois de ter tentado alimentar toda a gente, e de se obrigar a comer também um pouco do jantar, Ayalal deitou-se no chão, ao lado da enxerga de Lysa. A amiga estava acordada, observando-o com uma aparente dificuldade em manter os olhos abertos. Forçou um sorriso na direcção de Ay e deixou uma mão escorregar pelo chão na direcção dele, vacilante. Ele pegou-lhe com ambas as suas, mais pequenas, amparando-lhe a tremura. Uma humidade fria e doentia apoderara-se dela. Encostou-a ao seu rosto e aos lábios, tentando passar-lhe um pouco do seu calor.

– Desculpa, pequenino – murmurou, tão baixo que seria difícil alguém ouvir, para além dele. – Estou a dar-te tanto trabalho…

– Não penses nisso. – Manteve a mão dela encostada a uma bochecha. – Queria fazer mais, mas não consigo, Lysa.

– Tonto… já fazes demasiado. És só uma cri… – O sorriso esmoreceu por um momento, sendo substituído por um esgar de dor e a mão retraiu-se entre as dele. Ela reteve a respiração e fechou os olhos com força.

Ayalal semi ergueu-se do soalho, preocupado, apoiando-se num cotovelo.

– Lysa, posso…

– Não – arquejou – Já passou… já passou… não é nada de mais…

Mas era, e ele não sabia como ajudar. Podia rezar a todos os deuses, mas se algum quisesse realmente socorrê-los, já o teria feito. Estavam por sua conta. Quando a expressão da amiga descontraiu um pouco, Ayalal voltou a pousar o corpo no chão. Porém, no peito o coração ainda batia descompassado, temendo por ela.

As duas velas que iluminavam parcamente o quarto apagaram-se. Ay continuou a observar Lysa, apesar de agora ela ser incapaz de o ver.

– Não queria que tivesses de passar por isto – murmurou a jovem, por entre os gemidos baixos que, por si só, se tinham transformado numa espécie de atmosfera. – És só uma criança, e tão pequena.

Com cuidado, Ay largou a mão que segurava e empurrou-a de volta para a enxerga, tapando-a também com o cobertor. A seguir acariciou-lhe o rosto, tocando a cicatriz que a marcava. Lysa fechara os olhos e a respiração tornara-se mais suave.

– Eu também não queria que passasses por isto – respondeu. Não obteve resposta. Lysa cedera ao cansaço e acabara por adormecer, ainda que desassossegada.



De madrugada, Ay deu um salto do canto onde dormia, ao escutar um guincho de pânico. Olhou em volta, tal como alguns dos que haviam também acordado sarapantados, sem perceber o que se passava. Acabou então por detectar um trémulo braço erguido – Pather apontava para o tecto, horrorizado, ao mesmo tempo que se tentava sentar. As dores, no entanto, não lho permitiam, obrigando-o somente a contorcer-se e a arrastar-se, tentando fugir.

Ayalal ergueu o olhar para o tecto, descobrindo que estava vazio, como sempre estivera. E mesmo que não estivesse, por entre a escuridão, outra pessoa seria incapaz de ver fosse o que fosse.

– Ajudem-me! – O grito de Pather encheu o quarto. – Ela vai devorar-me, sal…salvem-me!

Passos rápidos percorreram o soalho e a porta abriu-se, deixando entrar uma nesga de luz fraca. Um vulto saiu, regressando pouco depois com uma vela acesa. Os que estavam mais perto puderam então testemunhar o puro terror com que o rapaz fixava o tecto, os olhos tão abertos que ameaçavam saltar das órbitas.

Ay levantou-se e saltou por cima de Lysa para chegar ao órfão. Tocou-lhe na fronte, somente para confirmar a forma como a febre lhe havia tomado a mente e distorcido a realidade.

– Hendran, água fria! – pediu Ay, agarrando-o para impedir que fugisse da enxerga. Pather esbracejou, atingindo-o ainda com uma cotovelada no queixo, porém a sua força estava tão deteriorada que pouco lhe doeu. – Nós estamos aqui para e ajudar, não vamos deixar que a coisa te faça mal.

A outra jovem havia já ido buscar a tina com água e pousava-a do outro lado do rapaz. Ensopou o trapo e passou-lho no rosto, enquanto Ayalal o prendia e forçava a deitar-se. Não era fácil, a inquietação dos delírios tornavam-no como cego e surdo a tudo o que não fosse a criatura imaginária que o atacava. Os minutos passaram-se, longos. Alguns dos doentes continuaram a observá-los, enquanto outros voltavam-lhes as costas e encolhiam-se sobre a roupa da cama. Pather acabou por se acalmar, em parte por exaustão, em parte pelo pano frio que se esforçava por arrefecê-lo.

Por fim, Ay largou-o, sentando-se no chão e enchendo os pulmões de ar. Suava por todo o lado, de nervosismo e cansaço. Levou ambas as mãos as rosto, deixando-as esconderem-lhe os olhos e o esgar de frustração.

– Vai dormir, pequeno.

Ayalal entreabriu os dedos, e espreitou Hendran. Tinha, talvez, mais um ano do que Lysa, mas o cabelo em desalinho e as olheiras profundas envelheciam-na muito além disso. Uma parte de si queria insistir e mantê-lo acordado, a outra só ameaçava cair para o lado para dormir e não mais acordar. Após uma hesitação, acabou por assentir e arrastou-se até ao seu cobertor. Não deu conta de ter adormecido.

***

Mosteiro das Sete Formas, 19 de Neth de 4592 AR (continuação)


Ayalal seguiu o passo de corrida de ambos, contendo-se para não os ultrapassar. No entanto, ao alcançarem o quarto, o rapaz estacou de súbito, ainda com um pé erguido, sem entrar. Pairava no ar um cheiro diferente.

– Pela Deusa – murmurou o clérigo, erguendo um braço por instinto e cobrindo a boca e o nariz com parte da manga.

– Não é só a diarreia. – A directora avançou sem hesitar por entre as enxergas, parecendo indiferente ao odor pestilento.

Pois não, não era só isso. Ay deu um passo atrás. Era um cheiro férreo, que o chamava, que lhe dava uma fome impossível de saciar.

– As fezes da bebé estão cheias de sangue vivo, demasiado, clérigo Itori. – Drane ajoelhou-se junto à bebé que nem para chorar tinha forças. O corpo pequeno tremelicava de fraqueza, numa ameaça implícita. 

As rugas do clérigo vincaram-se mais ao deparar-se com o estado da criança. Baixou-se ao lado da enxerga e arregaçou as mangas da túnica até aos cotovelos.

– O caso dela tornou-se extremo – murmurou. – Vou pedir à Deusa que me empreste os seus poderes curativos.

Da porta, com uma mão sobre a boca e o nariz, Ayalal estreitou o olhar na direcção do reverendo, atento ao que ele se preparava para fazer. Queria aproximar-se, porém temia que aquele terrível cheiro o aliciasse mais. A ponta da língua deslizou sobre os incisivos afiados. E se não se conseguisse controlar e atacasse alguém?

O clérigo iniciou o recitar de uma litania baixa, enquanto a mão esquerda se erguia de palma virada para cima. Um minúsculo ponto de luz branca surgiu do nada sobre ela, crescendo até se transformar numa esfera brilhante, como se a Deusa Sarenrae depositasse, de facto, um pouco do seu poder na mão do fiel. Ele voltou a baixar a mão e rodou a palma para baixo, pousando-a no peito da bebé. O corpo absorveu a luz.

Aguardaram, em silêncio. Aos poucos, a menina parou de tremer, todavia, as sobrancelhas do clérigo uniram-se ao meio da fronte, de tão franzidas. Algo não correra como ele previra.

De súbito, uma forte convulsão abalou o pequeno corpo, roubando-lhe um soluço. De imediato, a directora tirou a bebé de sob a mão do servo da Deusa, e agarrou-a contra si, tentando controlar-lhe os espasmos. Ao fim de alguns segundos, eles diminuíram e cessaram por si mesmos. Drane continuou com a criança abraçada ao peito, de lábios brancos de tão comprimidos.

– Directora – começou o homem, hesitando nas palavras. – Eu não… o feitiço… não consegui que a curasse.

Não obteve resposta. A mulher baixou o olhar para a criança, desencostando-a um pouco. Tocou-lhe no rosto com uma das mãos, depois no pescoço, e engoliu em seco. Fechou os olhos por um momento e Ay quase pensou que ela fosse desmaiar.

– Penso que agora já não podemos fazer mais nada, senhor – murmurou Drane, as pálpebras voltando a abrir-se e revelando um brilho húmido no olhar. – Mais nada.

Por um momento, Ayalal esqueceu-se do cheiro, da fome e do medo, enquanto fitava o pequeno corpo ainda nos braços da directora. Avançou, devagar, não conseguindo acreditar no que escutara. Parou ao lado do clérigo. O rosto da bebé descontraíra-se num repouso que já há dias não conseguia alcançar. Um repouso eterno.

O lábio inferior do rapaz começou a tremer e um aperto sufocante tomou-lhe a garganta. Ao contrário de Drane e do clérigo, não conseguiu conter as lágrimas pela vida inocente que acabara de se esvair.

***

Mosteiro das Sete Formas, 19 de Neth de 4592 AR


Nenhum dos doentes melhorou, pelo contrário: em alguns os sintomas agravaram-se, e destes surgiram outros que, sem piedade, atacaram os enfermos. Para além disso, novos casos despontaram entre os órfãos, tornando a divisão impossível de os alojar a todos. Por essa razão, Ay ajudou a transferi-los, ora ao colo, ora às costas, para o aposento maior: o quarto das crianças. Das 29 pessoas que viviam no orfanato, 21 havia adoecido. A ajudá-lo estavam somente a directora e a responsável mais nova. Às restantes crianças fora proibida a aproximação.

Até esse dia, nunca se apercebera realmente da diferença de forças que existia entre ele e os restantes órfãos, e até mesmo em comparação com próprias mulheres que cuidavam deles. Uma criança normal da sua idade não conseguiria levantar os doentes, muito menos transportá-los ao longo de um corredor.

– Ayalal. – A directora dirigiu-se-lhe, enquanto o rapaz aconchegava melhor Lysa, depois de a ter deitado. A doença galopara pela saúde dela: a febre recusava-se a baixar e, por vezes, nem os líquidos se seguravam no estômago. Ainda assim não era a pior.

– Sim, senhora Drane? – O tom dele era baixo, cansado. Porém, o que mais lhe pesava era a preocupação. Esfregou os braços doridos. Não tinha muita vontade de carregar mais coisas, já tivera a sua dose diária.

– Vai até ao templo e pede ao senhor clérigo para regressar contigo. Diz-lhe que nenhum deles teve melhoras… enfim. Diz-lhe o que se passa – pediu.

Ay hesitou, voltando a olhar o rosto lívido de Lysa, marcado pelas dores que o contorciam.

– Directora, porque é que me deixa tratar dos doentes? Não tem medo que fiquem piores por minha causa?

Drane ergueu uma sobrancelha.

– Isso são só disparates, rapaz. Estás aqui porque esta é uma tarefa com que poucas crianças conseguem lidar. És a excepção, e preocupas-te. Não me interessa o que és, ou o que os outros acham. Queres ajudar, é o que importa. Agora vai. – As palavras não perderam o tom severo e, de alguma forma, isso enfatizava a sinceridade.

O rapaz esboçou o sorriso pouco confiante, antes de sair do quarto, para iniciar uma corrida rápida pelo corredor. Desceu as escadas de dois em dois degraus e precipitou-se para a porta da rua. Pelo caminho, passou pela entrada em arco da cozinha, para além da qual se reuniam as restantes crianças.

– Ele está a fugir!

Ayalal olhou para trás, enquanto puxava o trinco pesado da porta. Três cabeças espreitavam da cozinha, com um olhar simultaneamente hostil e curioso. Não valia a pena responder-lhes, nunca ouviam. Ignorou-os e puxou a porta para si, abrindo-a o suficiente para sair.

– Vai-te embora, coisa!

Olhou por cima do ombro, a tempo de se baixar por instinto e levar as mãos à cabeça. Um projéctil voou por cima dele, indo aterrar lá fora com o barulho de metal a bater em pedra. Não esperou por mais nenhum incentivo e precipitou-se para a rua, meio aos tropeções, fechando a porta atrás de si com força. Encostou-se à madeira velha e inspirou fundo, as pálpebras fechando-se por um segundo.

– Eles vão odiar-me, faça o que fizer – murmurou, quando voltou a abrir os olhos. Um prato de estanho seu conhecido estava caído a dois metros dele. Foi apanhá-lo, com um suspiro, e rodou-o nas mãos. O impacto criara uma amolgadela na borda. – Tu também não fizeste nada de mal, pois não?

Abanou a cabeça e obrigou-se a afastar a frustração. Tinha uma missão mais importante. Com o prato debaixo do braço, correu até ao pequeno templo de Sarenrae, a uma dúzia de minutos de distância, e quase arrastou o clérigo atrás de si, de regresso ao orfanato.

Esperaram sob as luzes que mal mimetizavam o dia, após Ayalal bater à porta uma primeira vez. Voltou a bater, com mais força, sem obter resposta. Rangeu os dentes, já com vontade de esmurrar a madeira.

– Trago o senhor clérigo! – disse, erguendo a voz, assim como o rosto, para o andar superior. A directora e a outra mulher estavam ocupadas com os doentes, provavelmente não ouviriam se simplesmente batesse. Agora quem estava na cozinha com toda a certeza que ouvira. – Alguém abra a porta!

Dentro da sua túnica sacerdotal, o clérigo, um humano cuja meia-idade caminhava já para a velhice, ostentava uma preocupação resignada e paciente. Pousou uma mão no ombro da criança que começava a sussurrar impropérios, de lábios semicerrados. Ay mordeu a língua, calando-se. Se tivesse outra forma de abrir a porta… o clérigo não saberia nenhum feitiço para isso? Eles supostamente também sabiam magia! Yudarh conseguia abrir portas sem lhes tocar…

Por fim escutaram o trinco a ser corrido e a porta abriu-se. Os olhos de Ay arredondaram-se ao encarar a directora. O seu rosto estava muito mais rígido do que quando partira em busca de auxílio sagrado. Acontecera algo de grave.

“Lysa?” pensou, um arrepio de pânico percorrendo-lhe o corpo.

***